Pesquisa

Se você chegou até aqui já deve ter percebido que Um Grito Por Elas é uma luta de todas contra todas. Uma luta local contra todos os tipos de assédios sofridos dentro da Universidade Federal da Paraíba. É um passo que se une a caminhada de todas as mulheres e que representa a necessidade de dar voz ao debate sobre assédio.

No entanto, uma pesquisa do Instituto Avon e Data Popular revelou números importantes para clarear a realidade do assunto em âmbito nacional. A pesquisa se chama Violência contra a mulher no ambiente universitário e esclarece dúvidas frequentes, bem como expõe números claros que dão sentido a caminhada árdua das mulheres pelo fim do assédio.

A proposta da campanha do Instituto Avon, por meio de suas ações, é sempre dar voz a quem precisa falar sobre a violência contra a mulher e contribuir para que, cada vez mais, essa voz seja ouvida. Tanto a voz de mulheres que precisam de apoio para sair do círculo de violência, quanto a das organizações e pessoas que se dedicam a estudar essa pandemia e a buscar soluções para enfrentá-la. Além, claro, de promover o debate, a troca de ideias, a reflexão e, principalmente, a transformação.

A pesquisa foi realizada nos meses de setembro e outubro de 2015, com universitários dos cursos de graduação e pós-graduação. Foram ouvidos 1.823 universitários de todo o país, sendo 60% mulheres e 40% homens. Mais da metade (51%) dos entrevistados tinha idade entre 16 e 25 anos e 53% eram de classe média.

Medo constante

O ambiente universitário, que deveria ser apenas de interação e educação, também é espaço de medo para a mulher. Locais e acessos mal iluminados, falta de segurança, exposição a comportamentos machistas e violência de gênero são fatores determinantes para essa situação. A violência pode vir de criminosos externos, mas não só deles. Colegas e professores, parceiros do cotidiano, podem ser protagonistas de violências que vão da desqualificação intelectual ao estupro. Essa percepção, muitas vezes, já gera a intimidação.

Entre as alunas, 42% já sentiram medo de sofrer violência no ambiente universitário e 36% já deixaram de fazer alguma atividade na universidade por medo de sofrer violência. Apenas 10% das alunas que foram ouvidas relatam espontaneamente ter sofrido violência de um homem na universidade ou em festas acadêmicas. No entanto, quando são estimuladas com uma lista de violências, elas reconhecem que foram submetidas a muitas delas e o número sobe para 67%. Quando falamos dos homens, apenas 2% assumem já ter cometido assédio dentro da universidade e o número sobe para 38% quando são apresentados com uma lista de violências.

Conheça os tipos de violência

O Instituto Avon definiu alguns tipos de violência contra a mulher que vão além da violência física e sexual. Dessa forma, chegou-se a seis grupos de violências:

Assédio Sexual: Comentários com apelos sexuais indesejados, cantada ofensiva e abordagem agressiva. A pesquisa do Instituto Avon revelou que 73% de todos os entrevistados conhecem casos relacionados ao assédio sexual, 56% das mulheres já sofreram assédio e 26% dos homens já cometeram.

Coerção: Ingestão forçada de bebida alcoólica, drogas ou ser forçada a usar drogas sem conhecimento. Além disso, ser forçada a participar em atividades degradantes (como leilões e desfiles) também se encaixa em coerção. Das mulheres entrevistadas, 18% já sofreram coerção, 12% já foram forçadas a ingerir bebidas alcoólicas e 11% foram coagidas a participar de desfiles, leilões ou outras atividades degradantes. De todos os entrevistados, 32% conhecem casos semelhantes e 12% dos homens já cometeram coerção.

Violência Sexual: Estupro, tentativa de abuso enquanto sob efeito de álcool, ser tocada sem consentimento, ser forçada a beijar veterano. Segundo a pesquisa realizada pelo Data Popular, 28% das mulheres já sofreram violência sexual, 11% já sofreram tentativa de abuso sob efeito de álcool e 14% de todos os entrevistados conhecem casos de mulheres estupradas. Dos homens, 13% já cometeram violência sexual.

Violência Física: Significa sofrer agressão física. Das mulheres ouvidas na pesquisa, 10% já sofreram violência física e 4% dos homens já cometeram. De todos os entrevistados, 22% conhecem casos relacionados a esse tipo de agressão.

Desqualificação Intelectual: Desqualificação ou piadas ofensivas, ambos por ser mulher. Das mulheres entrevistadas, 49% já sofreram esse tipo de violência, 62% de todos os entrevistados conhecem casos relacionados a esse tipo de violência e 19% dos homens já praticaram.

Agressão Moral/Psicológica: Humilhação por professores e alunos, ofensa, xingada por rejeitar investida, músicas ofensivas cantadas por torcidas acadêmicas, imagens repassadas sem autorização, rankings (beleza, sexuais e outros) sem autorização. De acordo com a pesquisa, 52% das mulheres já sofrem agressão moral ou psicológica, 24% foram colocadas em rankings sem autorização, 14% tiveram fotos ou vídeos repassados sem autorização. Juntando homens e mulheres entrevistados, 71% conhecem casos relacionados a esse tipo de violência e 24% dos homens já cometeram esse tipo de agressão.

As violências são muitas, mas os estudantes homens ainda não reconhecem muitas das violências. Algumas das violências listadas ainda são vistas por boa parte dos rapazes como consequências naturais do comportamento da mulher ou brincadeiras sem intenção de ofender ou intimidar. A pesquisa percebeu que 27% não consideram violência abusar da garota se ela estiver alcoolizada, 35% não consideram violência coagir uma mulher a participar de atividades degradantes como desfiles e leilões e 31% não consideram violência repassar fotos ou vídeos das colegas sem autorização delas.

Por fim, a pesquisa revela alguns dados que, embora esteja no cotidiano das vítimas, ainda é um tabu que precisamos quebrar. De todas as mulheres ouvidas pelo Data Popular, 63% admitem não ter reagido quando sofreram violência. A maioria, infelizmente, ainda se cala. Para contribuir com a diminuição de todos esses números, a maior parte dos estudantes quer atitudes por parte das universidades. Das mulheres, 78% concordam que o tema violência contra a mulher deveria ser incluído nas aulas, e 64% dos homens também acham isso. Além disso, quase totalidade das mulheres (95%) acredita que a faculdade deveria criar meios de punir os responsáveis por cometer violência contra mulheres na instituição.

Confira a pesquisa na íntegra aqui.