Mulheres são pouco procuradas como fontes jornalísticas na Paraíba

Observatório da Mídia  /   /  Por Equipe GEM

Em outubro de 2010, a revista Superinteressante realizou uma pesquisa com o intuito de analisar todas as pessoas entrevistadas pelo veículo de acordo com o gênero. O resultado mostrou que 77% do total de pessoas ouvidas era composto por homens, ou seja, aproximadamente 1 em cada 4 fontes ouvidas pela revista era mulher. O dado é alarmante, tendo em vista que as mulheres no Brasil são mais da metade da população.

Levando esse e outros estudos em consideração, o GEM desenvolveu o projeto Entreviste uma Mulher na Paraíba, inspirado na ação “Entreviste uma Mulher”, do site Think Olga. O objetivo principal é diminuir a grande desigualdade de participação entre homens e mulheres atuando como fonte no jornalismo paraibano. Para isso, as principais ações incluem a criação de um banco de fontes constituído por mulheres, cujo uso será incentivado entre os meios de comunicação do estado, e a produção de pautas que tragam questões relativas ao protagonismo feminino.

Acreditamos que o aumento do número de mulheres como fontes de informação dentro da imprensa é um dos processos-chave na busca pela democratização da mídia, questão pertinente nos dias de hoje. Através dessa atitude, será possível dar maior evidência e representatividade às mulheres nas mais diversas áreas de atuação, contrapondo o discurso hegemônico que insiste em subjugá-las a espaços predeterminados e combatendo a invisibilidade da mulher.

Em um primeiro momento, foi realizado durante o mês de maio de 2016 um mapeamento em dois veículos de comunicação paraibanos, o jornal impresso Correio da Paraíba e o portal eletrônico G1 Paraíba, para um diagnóstico de como as mulheres são representadas na imprensa local.

Correio da Paraíba: um em cada cinco entrevistados é mulher

No jornal Correio da Paraíba, verificou-se que 16,4% do total de matérias – aproximadamente uma em cada seis – continha alguma fonte feminina, percentual abaixo do que se constatou na pesquisa da revista Superinteressante. Da mesma forma, quando analisada a proporção de mulheres entrevistadas dentro do total de fontes, o número praticamente não se altera: em cada cinco entrevistas publicadas pelo Correio, apenas uma foi feita com uma mulher (19%). Para se ter uma ideia, no mesmo período 74% dos entrevistados eram homens. O restante (7%) era composto por fontes institucionais.

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Averiguamos também em que tipo de matéria essas mulheres costumam aparecer mais. No Correio da Paraíba, o Caderno B ganhou considerável destaque nesse sentido, apresentando índices que chegaram a 50% de fontes femininas em alguns dias. O Caderno B é composto pelo editorial de Cidades, que conta com matérias diversificadas como casos policiais e denúncias de problemas de infraestrutura do município. As mulheres estão, no entanto, relativamente mais presentes em notícias relacionadas à saúde e à educação, que também são publicadas neste caderno. Não por coincidência, são duas das funções secularmente direcionadas às mulheres, a de cuidar e a de educar.

G1 Paraíba: mulheres como o “sexo frágil”

O levantamento das matérias postadas no mês de maio pelo G1 Paraíba mostrou que a representação feminina na mídia eletrônica é escassa. As mulheres representam apenas 14% das fontes ouvidas pelo portal, proporção semelhante ao que foi constatado no jornal Correio da Paraíba. No mesmo período, 38% dos entrevistados pelo portal eram homens e 48% das fontes eram institucionais.

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Além disso, é preciso analisar de que forma essas mulheres são representadas enquanto fonte de informação. Dentre as mulheres ouvidas, 60% eram especialistas no assunto da matéria, ou seja, simbolizam um lugar da razão e do domínio intelectual. Enquanto isso, 40% estavam no lugar de personagem ou não-especialista, ou seja, o local de fala que retrata a emoção, a subjetividade. Entre os homens, a proporção é de 86% de fontes especialistas e 14% personagens. Portanto, verifica-se que há uma forte tendência em caracterizar a mulher enquanto portadora de uma voz sentimental, o que condiz com os estereótipos de fragilidade e da maternidade atribuídos à mulher. Já aos homens é designada a posição da credibilidade e da racionalidade.

A mídia não representa as mulheres como figuras fortes e empoderadas. Pelo contrário, os meios midiáticos continuam a reproduzir o estereótipo machista da mulher emotiva, mãe ou dona de casa. A presença da mulher é mínima e, quando ela aparece, não é para trazer uma opinião especializada, é para relatar experiências muitas vezes dramáticas, como, por exemplo, falar de crimes. Isso se verifica quando analisamos as 516 matérias feitas durante o mês de maio pelo portal G1 Paraíba. Delas, apenas 24 tratavam de temas relativos à mulher, pouco mais de 4%.

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Um árduo caminho pela frente

Os dados coletados a partir do mapeamento do jornal Correio da Paraíba e do portal G1 Paraíba, se comparados ao levantamento feito pela revista Superinteressante (2010), apontam para uma realidade ainda mais grave dentro do Nordeste quando comparado ao que se observa no Brasil como um todo.

De acordo com levantamento feito pela Universidade de Nevada, que avaliou a presença de fontes femininas no jornal The New York Times, diversos fatores podem explicar essa disparidade entre fontes femininas e masculinas: a ausência de mulheres nas redações, a tendência dos jornalistas usarem as mesmas fontes, devido à falta de tempo causada pelo ritmo acelerado de produção das notícias, ou mesmo a falta de possíveis entrevistadas, causada pela carência de mulheres em cargos de destaque.

Para conseguirmos uma informação democrática precisamos dar voz às nossas mulheres. A falta de representatividade feminina nos veículos midiáticos como fontes de informação colabora para a reprodução de estereótipos construídos por uma mídia machista e elitista. Portanto, o fortalecimento do protagonismo das mulheres junto à imprensa, através da representação mais diversa e menos estereotipada delas é um dos fatores necessários à democratização dos meios de comunicação e ao fim da perpetuação do sexismo e da misoginia na mídia.

O projeto Entreviste uma Mulher na Paraíba está apenas começando. Os trabalhos de análise e coleta de dados estão em processo de apuração, bem como a produção das pautas relativas a assuntos de empoderamento e visibilidade para as mulheres. O projeto começou, mas promete levar um maior número de informações para jornalistas não apenas da Paraíba, mas de todo o Brasil.

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