Mulher na presidência: um direito negado

Observatório da Mídia  /   /  Por Equipe GEM

Como uma potência mundial não conseguiu eleger uma mulher e por quê ela foi a primeira a se candidatar a presidência no país?

“Quando você é famoso, elas deixam você fazer”, continua. “Agarra ela pela boceta. Você pode fazer qualquer coisa. Eu parti para cima dela como uma cachorra, mas não consegui comer. E ela era casada”, afirmou, confiante. O ano era 2005, o local era a sala de espera do programa de celebridades americanas, o Days of Our Lives. O sujeito era o candidato eleito: Donald Trump.

Essas foram as falas do candidato eleito nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, Donald Trump, vazadas num vídeo e publicadas pelo tradicional The Washinton Post. Esse vídeo foi usado na campanha da candidata do partido dos Democratas, Hillary Clinton, primeira mulher a se candidatar à presidência nos Estados Unidos da América.

Hillary sofreu ataques sexistas durante toda a campanha, muito similar ao processo eleitoral da ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Os ataques podem ser analisados a partir do viés dos Estudos Culturais. À mulher, historicamente, foi negada a vida política e foi dada apenas a representação de boa esposa com o cargo de “primeira-dama”.

O título foi criado pelo ex-presidente, Zachary Taylor, em 1850 e desde então vem sendo usado como marketing político. 160 anos após a criação do termo, em uma busca rápida em sites de pesquisa, encontra-se a seguinte definição:

 “A primeira-dama não possui funções oficiais dentro do governo, mas costumam participar de cerimônias públicas e organizar ações sociais, tais como eventos beneficentes. Uma primeira-dama carismática pode ajudar a transmitir uma imagem positiva de seus maridos à população”.

Essa negação cultural é refletida em números. De todos os países do mundo, apenas 19 tiveram presidentes mulheres eleitas.

 

Brasil, Nicarágua, Panamá, Chile, Argentina e Costa Rica são os únicos países da América Latina que tiveram mulheres presidentes escolhidas nas urnas.

O site Gênero e Número realizou uma pesquisa e mostrou em números como a mulher está sendo representada no lesgislativo na América Latina. A pesquisa mostra que o Brasil tem 10,7% de mulheres na casa.

 

 

 

Nos Estados Unidos a representação feminina é baixa. Fizemos um levantamento da quantidade de mulheres senadoras, nos partidos Democratas e Republicano, e chegamos aos seguintes números: Cerca de 29% dos senadores do partido Democratas são mulheres, enquanto no Republicano esse número chega a ser ainda menor. Apenas 9,3% são senadoras.

 

 

A campanha e a mídia

O direito negado às mulheres de exercer a política de seus países e de ser impedidas se já estiverem no cargo, – como foi o caso da ex-presidente Dilma-, também recebe uma forte interferência da construção midiática em torno.

Em 2007, Hillary, ainda senadora, subiu ao Congresso americano para falar sobre a educação e a informação mais importante que o The Washington Post conseguiu foi sobre o decote inexistente dela. “Foi surpreendente notar um quê de sexualidade e feminilidade dando as caras no ambiente esteticamente conservador do Congresso”, escreveu Robin Givhan.

A forma mais comum de sexismo nas coberturas midiáticas sobre mulheres é deixar de dar atenção ao real motivo e desqualificá-la dando atenção aos seus jeitos, forma de falar, forma de se vestir e de se portar.

O revista Piauí fez um levantamento sobre as coberturas midiáticas da ex-presidente Dilma Rousseff, a presidente argentina Cristina Kirchner e a candidata americana, Hillary Clinton.

De acordo com o site, foram feitos inúmeros levantamentos sobre a cobertura que receberam mulheres de variados perfis políticos – como as candidatas Irene Sáez na Venezuela; Hillary Clinton e Sarah Palin nas primárias americanas. “Constatou-se que, ao tratá-las com os estereótipos de sempre, a imprensa pode influenciar as campanhas, mas não é decisiva para definir a eleição”

 

 

O Jornal Nacional, o telejornal da Rede Globo, ao fazer uma cobertura especial das eleições americanas recebeu críticas. Ao exibir um quadro comparativo, o programa caracteriza Hillary como “mulher” e, ao lado, Trump como “bilionário”. O vídeo pode visto nesse link.

 

 

Um editorial da Revista Época analisou, junto a Consultora de imagem – Olga Curado-, a linguagem corporal da candidata. Sendo o texto, a candidata “procura sempre demonstrar controle e determinação em seus discursos”.

A derrota

Hillary Clinton perdeu as eleições americanas com uma diferença pequena e abriu margem para próximas candidaturas femininas. Hillary disse que americanos e americanas devem lutar pelo princípio da igualdade e declarou: “Nada me fez mais feliz do que ser a campeã de vocês”. As eleições de 2016 serviu para escancarar a divisão de opiniões no país e a necessidade de um maior debate sobre as discussões de gênero. Afinal, quem tem medo de uma mulher presidente?

 

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