Jornalismo Feminista em pauta

Observatório da Mídia  /   /  Por Equipe GEM

Os meios de comunicação, em geral, sempre trabalharam em favor da reprodução de estereótipos de gênero. A partir da chamada “segunda onda”, o movimento feminista apontava cada vez mais a necessidade de uma representação própria. A partir da década de 1970, espaços e veículos foram surgindo para dar voz às mulheres. Boletins, revistas, jornais e meios de comunicação massivos, programas de televisão e rádio. Apesar do crescimento das revistas especializadas femininas direcionadas ao debate de gênero, muitas apenas reafirmavam os padrões de estereótipos, prestando um grande desserviço aos movimentos de gênero.

Revistas da década de 80.

Revistas da década de 80.

A imprensa alternativa vem para contrapor as mídias massivas, ela assume características e meios de produção próprias que alertam para as práticas do discurso dominante. Entre as diversas experiências de imprensa feminista, agora reconhecida como modalidade da imprensa alternativa, registradas a partir dos anos 1970, destacam-se os jornais Brasil Mulher (1975-1979), Nós Mulheres (1976-1978) e Mulherio (1981-1987).

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Jornalismo especializado com enfoque em gênero

A partir dos anos 2000, observou-se a ampliação do debate inclusivo de gênero. Jornais, revistas, rádios, podcasts e sites atualizaram suas editorias e passaram a ter o interesse em debater o feminismo e políticas de gênero. O ano de 2015 foi considerado o ano do feminismo, sendo chamado de “primavera das mulheres”.

Campanhas que visam denunciar machismo nas redes sociais ganharam uma força que ainda não era vista nos últimos meses. Lançadas por coletivos feministas, hashtags como #MeuPrimeiroAssédio, #ChegaDeFiuFiu ou #MeuAmigoSecreto dominaram as redes sociais e estimularam mulheres a contar seus episódios de opressão para que outras se encorajassem a fazer o mesmo e, assim, ficassem cientes de que não estão sozinhas.

Segundo a Central de Atendimento às Mulheres, no ano de 2016 as denúncias feitas no 180, o “disque-denúncia”, alcançou 40% a mais do que no ano passado. Uma das contribuições para esse aumento foram os sites especializados em jornalismo feminista.

 

Think Olga

O Think Olga é um projeto feminista criado em abril de 2013 pela jornalista Juliana de Faria e foi um dos grandes precursores do feminismo nas redes sociais. O projeto criou uma cartilha com dados sobre os avanços feministas que pode ser vista nesse link.

Em abril de 2013, o Think Olga lançou o “Chega de FiuFiu”, uma campanha de combate ao assédio sexual em espaços públicos. Inicialmente, foram publicadas ilustrações com mensagens de repúdio a esse tipo de violência. As imagens foram compartilhadas por milhares de pessoas nas redes sociais, gerando uma resposta tão positiva que acabou sendo o início de um grande movimento social contra o assédio em locais públicos.

Com quase 8 mil participantes, 98% das mulheres pesquisadas afirmaram já ter sofrido assédio, 83% não achavam legal, 90% já trocaram de roupa antes de sair de casa pensando onde iam por causa de assédio e 81% já haviam deixado de fazer algo (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) por esse motivo. Você confere a pesquisa completa nesse link.

Fonte: Reprodução/Internet

Fonte: Reprodução/Internet

 

Geledés

 Fundada em 1988, o Geledés é uma organização que pauta as questões de gênero, as implicações desses temas com os direitos humanos, a educação, a saúde, a comunicação, o mercado de trabalho, a pesquisa acadêmica e as políticas públicas.

Nas questões de gênero, o Geledés alinha-se à agenda feminista, atuando contra a violência doméstica e sexual contra a mulher, pela realização da igualdade no mercado de trabalho, em defesa dos direitos reprodutivos e direitos sexuais das mulheres, pela descriminalização do aborto e contra os estereótipos e estigmas que se reproduzem sobre as mulheres nos meios de comunicação.

No tema da violência contra a mulher, o grupo desenvolveu o Aplicativo PLP 2.0, para socorrer mulheres em situação de violência.

A organização possui o Programa de Comunicação do Geledés que desenvolve ações no campo das comunicações, seja através de uma qualificada intervenção na mídia, sejam nas capacitações de organizações de mulheres negras e outras organizações do movimento social em comunicação, mídia e advocacy, seja através do diálogo com profissionais da grande imprensa, seja na capacitação para TICs.

 

Gênero e número

 Já que estamos falando em Jornalismo Especializado, por que não aprofundar mais e encarar o Jornalismo de Dados? O recém lançado site Gênero e número é uma iniciativa independente de jornalismo, que se propõe a levantar, tratar e expor dados e evidências em conteúdo de múltiplos formatos – com reportagens em texto e em vídeo, visualizações de dados interativas, ou mesmo apresentando os bancos de dados construídos ou analisados ao longo das apurações.

Com equipe formada só por mulheres, o site fez um especial sobre as mulheres nas Olimpíadas e provou que a mídia tradicional está longe de ser equivalente com os gêneros. (Lembrando que o GEM, também aproveitou o momento olímpico e preparou uma matéria especial para os seus leitores). Segundo o levantamento do Gênero e número, a exposição de atletas mulheres no programa Sportcenter, da ESPN, e o programa Esporte Espetacular, da Globo, foi de 10% do tempo total de transmissão. Enquanto nos jornais impressos, apenas 8% de atletas mulheres são citadas.

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Nós, mulheres da periferia

 O coletivo Nós, mulheres da periferia propõe reduzir o espaço vazio existente na imprensa e a falta de representatividade, buscando mais protagonismo e visibilidade. Além de reconhecer e fazer parte desta luta, a proposta do coletivo é construir um espaço com informações que extrapolem a questão de gênero e atinja o campo social e étnico, onde a exclusão é muito maior.

A campanha #EuMulherNaPeriferia recebeu fotos de mulheres empoderadas dentro das favelas. “Tem muito mais mulher poeta do que imaginamos na quebrada. Mulher puxando samba em roda de bamba no bar ao lado. Que falar o real nome do bairro onde moramos não é problema algum. Admiramos as tias sentadas em frente de casa conversando. Falando alto na busca por moradia, saúde, educação”, Regiany Silva, jornalista.

São oito jornalistas da periferia de São Paulo. Elas produzem conteúdo sobre temas tabus na imprensa tradicional.

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Coletivo Nísia Floresta

O Coletivo de Jornalistas Feministas Nísia Floresta nasceu em Curitiba para integrar mulheres jornalistas e feministas. Seu objetivo é se tornar um espaço para a discussão sobre as intersecções entre o Jornalismo e o Feminismo.

Com espaço reservado para crítica da mídia, o coletivo produz textos diários sobre casos de violência contra a mulher retratados de forma machista pela mídia tradicional.

 

AzMina

 A Revista AzMina começou como uma publicação digital e gratuita, com o objetivo de contribuir para a redução das desigualdades de gênero no Brasil. Concebida por uma equipe fundamentalmente feminina, a revista pretende mudar a comunicação jornalística e publicitária no que se refere ao discurso de gênero e da representatividade.

O carro chefe é o jornalismo investigativo, independente e de qualidade. Trazem à tona temas usualmente esquecidos pela imprensa brasileira, como a falta de representatividade política da mulher e a violência doméstica. A revista AzMina ajuda a promover um marketing mais respeitoso, construindo um senso de padrão feminino diversificado e empoderador.

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