Mulheres do CCHLA defendem criação de políticas de gênero na UFPB

Um Grito por Elas  /   /  Por Equipe GEM

Aconteceu na última terça-feira (20) o lançamento da campanha Um Grito por Elas no Centro de Ciências, Humanas, Letras e Artes (CCHLA), com debate sobre a cultura da violência dentro do Centro e na Universidade Federal da Paraíba de um modo geral. O encontro fez parte do ciclo de palestras e discussões promovidos pelo Grupo de Estudo e Pesquisa Gênero e Mídia, para divulgar a campanha Um Grito por Elas: Mulheres da UFPB contra a violência, que propõe dar visibilidade ao número de casos de assédio e outras violências que acontecem contra as muheres dentro da instituição, por meio de depoimentos anônimos de estudantes, funcionárias, professoras e qualquer outra pessoa que mantenha vínculo com a UFPB.

O encontro foi aberto com o grupo AfroNordestinas, apresentando o rap feminista e denunciando a violência com cultura e empoderamento na arte que faz.  Kalyne Lima e Juliana Terto compõem também o projeto chamado Sinta A Liga Crew, que pretende transformar rap e arte em cultura e respeito. Em seguida, a aluna do curso de Letras, Amanda Vital, recitou o poema “Meu Assassino”, de Alice Sant’Anna.

kalyne-e-juliano-terto2

poema2

Entre relatos e constatações

As discussões foram iniciadas com a professora e coordenadora do GEM, Margarete Almeida, no momento em que apresentou a plataforma Um Grito por Elas. A professora ainda explicou que a proposta das denúncias não é apenas para casos de assédio e sim de violência contra a mulher de um modo geral. “A violência simbólica, por exemplo, é uma das principais e a gente não vê”, ressaltou.

Com dois meses de lançamento da plataforma, os resultados já são expressivos, conforme mostrou Margarete durante sua fala no encontro no CCHLA. Com os dez relatos recebidos, foi possível analisar que a faixa etária das vítimas varia entre 17 e 43 anos. Além disso, 60% dos relatos são de estudantes, 20% de funcionários e 20% estão enquadradas em outras funções. A professora destacou a importância de docentes também denunciarem, tendo em vista que casos desse tipo também acontecem com frequência na instituição e até o momento nenhum depoimento dessa classe foi enviado. “Mexer com a violência é algo que mexe com nossa subjetividade”, refletiu.

Em seguida, a diretora do CCHLA emocionou a todos com um relato real e forte sobre a história de violência sofrida pela mãe. Mônica Nóbrega confessou que levou a mãe até a palestra para que ela também sentisse a necessidade de ouvir e falar sobre um assunto que todas vivem diariamente. A professora contou que o mesmo homem que agredia a sua mãe, era um pai que ensinava às filhas a se defender de homens como ele. Com um relato tão vivo, Mônica conseguiu alertar a todos para a importância de discutir a violência contra a mulher. “A gente precisa saber o que é ser mulher nessa sociedade”, disse. “Obrigada, minha mãe, que me ajudou a ser quem eu sou hoje”, finalizou.

14446423_1749425378652038_691107298_o

Jaqueline Barros, Jade Carvalho, Margarete Almeida, Mônica Nóbrega e Nívia Pereira.

A palavra ficou com a estudante de filosofia, Jade Carvalho, que trouxe um relato também pessoal sobre a vida de uma transexual dentro de uma universidade. “É difícil entrar e é difícil permanecer pela falta de apoio e pela discriminação”, destacou. Jade comentou que para ocupar esse lugar que se encontra agora foi percorrido um longo caminho por outras trans, para que o espaço fosse, enfim, também fosse livre pra elas e, principalmente, com um pouco mais de respeito. “Ser mulher é aquilo que a gente é. É aquilo que a gente assume para o mundo. A gente quer existir com respeito”, desabafou.

O debate deu continuidade com uma fala empoderada e politizada da professora do curso de Serviço Social, Nívia Pereira. Ela lembrou da importância de pautar a violência contra a mulher na UFPB de um modo geral. “É preocupante”, declarou. Destacou ainda que o maior problema dentro da instituição é a falta de uma política institucional que acolha e apoie as vítimas. “Um dos maiores desafios é levar a mulher a denunciar, mas a UFPB e o CCHLA não está preparado para acolher a denúncia”, disse.

Para solucionar essa questão, ela sugeriu a criação de uma ouvidoria, um espaço onde as mulheres possam dizer que existem e que há um grande problema acontecendo dentro da instituição. “Criar uma ouvidoria específica para pensar a violência no campus”, sugeriu. Para finalizar, a aluna também de Serviço Social, Jaqueline Barros, concluiu dando sustentação a todas as falas anteriores. Com dados do Mapa da Violência, e da violência contra a mulher no ambiente universitário no Brasil e na UFPB. Com isso, a estudante comprovou o quanto é necessário colocar o assunto em debate e buscar alternativas para solucioná-lo. Fez ainda reflexões importantes sobre a construção desta violência, a importância das políticas de gênero e as particularidades da experiência desta produção da violência, como as questões de classe, de raça e sexualidades.

O projeto Um grito por elas: mulheres da UFPB contra a violência prossegue com o debate e a construção coletiva para implantação de políticas de gênero em todos os campi da Universidade Federal da Paraíba. No mês de outubro, será a vez do Campus de Rio Tinto e Mamanguape apresentar suas sugestões e discutir a violência contra as mulheres a partir da realidade local

Mulheres da UFPB contra a violência


iale-pereira2Iale Pereira

estudante de Relações Internacionais

“A violência se mostra de diversas maneiras, não somente física. Não existe a consciência masculina de que você pode agredir uma pessoa simplesmente fazendo uma cantada. Existem muitas formas de você usar da violência verbal contra a mulher. As pessoas acham que violência é só agressão. Isso poderia ser mudado pela conscientização masculina, principalmente, e também pelo empoderamento das meninas. As mulheres se juntando, agindo em conjunto contra isso, também é uma ótima base de força.”

emmy-lyra2Emmy Lyra
mestre em Geografia e militante da Marcha Mundial das Mulheres

“Somos construídos numa sociedade patriarcal, então a universidade não vai estar fora dessa esfera. Dentro da UFPB isso é um espaço de reprodução porque há uma relação de poder. Eu não me formei dentro do CCHLA, mas sempre estive nesses espaços, porque sempre estudei gênero, feminismo, mas dentro da própria academia você vê isso muito notório dentro da ciência. Eu sou um reflexo porque venho de uma ciência, que é a ciência geográfica, bem complicada pra essa debate. Você sofre na pele enquanto mulher essa desqualificação intelectual, além de ter vivido uma relação extremamente abusiva no meu casamento anterior. A gente tem que começar a debater dentro da universidade, trazer a universidade para fora, para mostrar a universidade e vice-versa. Eu acho que na conjuntura, principalmente política, que estamos, precisamos fazer o diálogo além da universidade, trazer as mulheres que estão dentro da UFPB e conseguir enxergar esse processo de violência enquanto intelectuais, pesquisadores, docentes. E romper com essa opressão que existe aqui dentro.”

leandra-gomes2Leandra Gomes
estudante de Relações Internacionais

“Eu acho que hoje não só no Brasil, no mundo, em todos os lugares, existe a banalização da violência da forma como se trata a mulher. E muitas pessoas acabam agredindo até de forma inconsciente e eu acredito que na UFPB não é diferente.”

 

 

daniela-georgia2Daniela Georgia
estudante do curso Técnico de Enfermagem

“Eu sei que existe uma cultura de violência dentro da UFPB e ela se manifesta na própria cultura machista que está inserida tanto no contexto acadêmico, quanto no contexto dos funcionários. Ela está inserida dentro da perspectiva de que não se trabalha isso dentro da universidade, em relação a que exista um trabalho de respeito. As pessoas têm medo de falar sobre o que acontece realmente. Entre os professores e as alunas, entre os funcionários, que quando a gente passa eles não têm respeito por nós, pelas mulheres, pelas trans, e desrespeitam também as lésbicas. O tema ainda não é trabalhado abertamente. A cultura do machismo vem se propagando porque eles não aceitam que nós temos direitos iguais e merecemos respeito. Isso é, sobretudo, um direito humano. Eles têm obrigação de respeitar como ser humano. Quando dizemos não, estamos dizendo não. Não é não.

Relacionados

Em continuação a rodada de palestras sobre violência contra a mulher em todos os Centros e campi da...

Acontece na próxima terça-feira (20), às 19h, no Centro de Ciências, Humanas, Letras e Artes...

Na manhã desta quarta-feira (27), o Grupo de Estudo e Pesquisa em Gênero e Mídia lançou a...

Deixe um comentário