Aplicativo NINA: sororidade e empoderamento

Observatório da Mídia  /   /  Por Equipe GEM

Em maio deste ano a aluna Simony César, estudante de Design Gráfico do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Paraíba (IFPB) ganhou um prêmio que representa todas as mulheres do país. A estudante criou um aplicativo chamado NINA que permite mapear casos de assédio sexual em cidades e foi a grande vencedora do concurso “HackaCity”, em Recife (PE). O projeto NINA foi desenvolvido em conjunto com estudantes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).

Quando o aplicativo NINA for lançado, será possível mapear os principais casos de assédio em João Pessoa, identificando as linhas de ônibus que têm maior índice de assédio, o horário, trechos e ainda registros fotográficos dos criminosos.

“O NINA é a sororidade tecnológica, se assim posso dizer”, frisou Simony. O aplicativo visa dois tipos de usuário: o “eu”, que é aquela que sofre o assédio, e o “ela”, aquela que presencia o assédio. Segundo Simony, a denúncia se resume a curtos cliques. Com a confirmação, todas as pessoas que estão em um raio próximo à vítima e também possui o NINA instalado no celular, receberão uma notificação dizendo a geolocalização do ônibus, o nome e número de ordem do veículo e o horário. “Aí está a concepção de sororidade, de ampliar através da tecnologia a voz da mulher vítima”, disse.

Outro recurso que estará presente no NINA é o banco de dados para os usuários terem acesso a perfis com fotos e locais onde os crimes acontecem, facilitando a identificação dos agressores. No entanto, essa funcionalidade só será possível para o perfil da pessoa que presenciou o assédio. “Você pode fazer um vídeo, tirar uma foto e fazer um upload disso. Uma vez estando no banco de dados, a gente filtrando isso, pode até mapear maníacos que atuam em diversos trechos da cidade”, comentou Simony.

De acordo com Simony, o aplicativo faz uso de dados livres da cidade de Recife. Com isso, elas tiveram acesso às informações dos ônibus em tempo real. O aplicativo se fará como um portal, alimentado em tempo real de onde poderá ser extraído relatórios.

Atualmente, o aplicativo está em validação, a caminho para o Produto Mínimo Viável (MVP). Desde maio de 2016, a equipe foi reestruturada e hoje é composta por cinco mulheres, três programadores e dois designers. A fase de testes do NINA acontecerá nas linhas de transporte coletivo que circulam na Cidade Universitário da UFPE. O aplicativo idealizado por Simony ainda é desenvolvido a custos pessoais, mas está buscando parceria com instituições privadas e públicas.

EMPODERAMENTO TECH

A premissa do projeto NINA visa empoderar as mulheres através de um aplicativo que denuncie tipos de violência sofrida por elas em espaços públicos. O NINA representa e exemplifica um conceito básico do feminismo, que tem ganhado voz e unido mãos em prol da igualdade: a sororidade.

Essa palavra, sozinha, talvez não signifique nada pra você. Mas ela é a união de todas as mulheres que sofrem violência e que vivem imersas em um mundo machista e patriarcal. Se não fossem as mãos dadas, os abraços e companheirismos, as mulheres e o feminismo não teriam conseguido impor suas reivindicações com tanta força.

“O NINA é uma arma de combate ao assédio, estupro e outras formas de violência contra a mulher. O NINA é mais que um aplicativo, que um software, o NINA é a sororidade tecnológica”, ressaltou Simony.

Em junho, Simony ganhou um prêmio internacional que chamou atenção para a realidade da violência contra a mulher

Simony ganhou um prêmio internacional que chamou atenção para a realidade da violência contra a mulher.

CONFIRA A ENTREVISTA QUE FIZEMOS COM SIMONY CÉSAR, CRIADORA DO NINA

GEM: Como o NINA irá ajudar as mulheres?

Simony: O NINA age emergencialmente e preventivamente. Emergencialmente quando ele, em tempo real, emite um alerta de assédio para as pessoas no espaço próximo a vítima. Preventivamente porque as estatísticas geradas serão objeto de estudo para ação de segurança pública, políticas de empresas para incentivar a equidade de gêneros nos espaços e ascender o debate sobre a “normalização” da cultura do estupro na sociedade brasileira.

 GEM: Quais foram os primeiros resultados do NINA?

Simony: Nas redes sociais vemos já a aceitação das pessoas antes mesmo do lançamento do produto. É uma carência, um revolta, um clamor por justiça. Estamos trabalhando arduamente para a melhor desenvoltura do sistema e efetividade da proposta.

GEM: Como a tecnologia pode contribuir para o enfrentamento da violência contra as mulheres?

Simony: Dando voz à vítima, maximizando o pedido de socorro.

GEM: Como é ser mulher no mundo da tecnologia e quais as dificuldades que você já encontrou na sua trajetória?

Simony: Desafiador. Eu já recebi uma mensagem com o seguinte conteúdo “mulher programadora = raridade”. Sem falar que mesmo dentro de projetos que tem a mulher como destaque, o espaço de fala é tomado por um homem programador que acha ter mais conhecimentos sobre o assunto de programação e de violência contra mulher do que uma mulher programadora. Não há filtro para isso, para respeitar espaço de fala nessa campo. Quando uma mulher se destaca, por exemplo, em programação, recebemos “elogios” como: “tu parece um brother”, “tu nem parece uma mulher desenvolvendo”, “essa nega é brother, parece um homem programando”, “tu é bem hominho”, “tu é programadora de facebook”. Sem falar com relação a questão salarial que é gritante. Sei de casos que abriram um vaga pra um menina como trainee quando ela fazia a mesma coisa que engenheiros juniors, mas como trainee era um valor menor, embora o trabalho fosse o mesmo e, no caso dela, pelas skills que ela tem, deveria ser até maior que o dos caras.

É uma luta, é uma guerra diária. Que começa desde o início da área acadêmica com a graduação, mestrado, doutorado e maximiza e toma corpo, principalmente, no mercado de trabalho. Mas isso não me faz esmorecer, muito pelo contrário, é jogar álcool no fogo pra ampliar esse misto de revolta e raiva para as demais companheiras de área para nos apoiarmos na luta e na reivindicação de espaços e de direitos igualitários.

GEM: O que o NINA significa pra você, como mulher, estudante, profissional?

Simony: O NINA tem se transformado em meu projeto de vida. Eu sou estudante de designer, mas antes de qualquer coisa, eu sou mulher feminista, chega a ser redundante “mulher feminista”, acredito que toda mulher já deva ser.

Eu quero uma academia que me dê as mesmas chances dadas aos homens, eu quero poder ir pra faculdade sem ser subestimada por ser uma mulher, por ter minha capacidade de desenvoltura como profissional posta em xeque pelo simples fato de eu não ser do sexo masculino.

O NINA é sintetização de minha luta, da luta de minhas amigas, de todas as mulheres que trabalham, especificamente, com TI (Tecnologia da Informação), embora a gente saiba que o machismo está presente em todos os espaços e classes. Mas há uma utópica propaganda de que em ambientes acadêmicos e, principalmente, tecnológicos, só há seres desconstruídos, quando, muito pelo contrário, há muitos seres que solidificam e perpetuam comportamentos misóginos e machistas.

GEM: Como foi escolhido o nome NINA?

Simony: O nome NINA foi escolhido em homenagem a mulher, negra, feminista que lutou pelos direitos civis norte-americanos, a cantora Nina Simone. Nina Simone sofreu durante grande parte de sua vida por questões de violências desde o racismo a violências de gênero. Seu empresário, também seu marido, a agredia e a obrigava a cumprir agendas de shows. Ele a manipulava, apesar de ser a cantora, quem tinha domínio sobre o dinheiro da carreira de Nina, era o só o seu marido.

Já calejada da relação, Nina Simone deu uma entrevista dizendo que: “Liberdade, para mim é isto, não ter medo”. O slogan do NINA é Liberdade é não ter medo.

Foto: Divulgação

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